domingo, 25 de julho de 2010

A escolha da fantasia

Noite de segunda-feira, contorno o cemitério da Consolação – consegue imaginar nome mais irônico para um cemitério? –, e após desviar de modo um tanto brusco de um ou outro mendigo, cuja abundância em bairros mais endinheirados de São Paulo me toma de curiosidade até hoje, chego à lojinha que aluga fantasias.


Toco a campainha tendo aos meus flancos duas pessoas do convívio, um estampido se segue ao tocar da capainha, muito alto por sinal, causando sobressalto e breve comoção, afinal era tarde, e a vizinhança não inspirava confiança, por favor entenda.

Subo as escadinhas e me deparo com um salão central cujas paredes são revestidas de espelhos, fantasias penduradas por cabides em araras.

E então tem início a provação – o ato de provar e a situação aflitiva –, não posso esconder o fato de que eu não havia até então elaborado uma fantasia, tão pouco pensado em uma comum que seria facilmente encontrada. Vou eu até as araras, felizmente estas não voam, estava com preguiça de viver neste dia. Toma minha atenção uma dezena de super heróis pendurados por seus ombros, mas eram todos heróis musculosos, e eu, bem, eu sou... não sou musculoso, embora possa até ter meus momentos de heroísmos. Então, vejo as fantasias de pelúcia, tigre branco, pato e dálmata. Pelo dálmata temi ser confundido com algum bovino qualquer, e pensei, não quero ser apontado como “vaca”. O pato, quem quer ser pato!? Mas, o tigre branco me empolgou e já o puxei de lado pelo rabo, quem não gosta de um gato grande a ronronar? Depois saltei pelos séculos ao atravessar as araras para dar de cara com a armadura peitoral de um legionário, dizer que é romano seria um pleonasmo exagerado, vi Merlins ao seu lado, príncipes e reis. Puxei um príncipe pra junto de mim e algo que parecia uma veste do século XVIII com direito a casaca, chapéu, relógio de bolso e bengala.

Me dirijo com a trupe toda ao provador e fecho a cortina, mas o show está só começando. Experimento o príncipe, mas ele não me agrada, a nobreza é folgada e não se ajusta bem, acha que tem que ser tudo do seu jeito e pronto. Tento a veste do século XVIII e me surpreendo ao descobrir que trata-se na verdade de Willy Wonka, a maneira como Willy estava dobrado ocultava sua verdadeira identidade. Willy foi perfeito como chocolate, saí feliz do provador com ele para verificar a opinião pública, Willy foi muito bem recebido. Caminhei com ele pela lojinha para ter certeza de que realmente tínhamos algo em comum além do chocolate, e fiquei satisfeito ao perceber que éramos almas gêmeas, claro que precisávamos nos entender quanto a um ponto ou outro, mas começamos muitíssimo bem, obrigado. Volto para o provador com Willy para provar o gatinho agora, mas o gatinho não tinha a altura necessária para estar comigo, era um tampinha que batia no meu peito, mesmo estando na ponta dos pés, descartei-o.

Pedi então que reservassem Willy pra mim, e fui de volta à realidade descendendo os degraus e já não me assustando com o estampido alto da campainha.

2 comentários:

  1. É,DUZINHO das conversas e memórias ressurgem as idéias mesmo,né.

    DUUUU,esse dia foi tão normal e vc soube transformá-lo num texto tão gostoso,divertido e bem escrito.
    Parábens! tomara que vc sempre escreva eu sei que vc tem muito talento e te dou todo apoioooo de verdade até uma ida pr trabalho vc transforma em algo gostoso e diferente sem acrescentar fatos e ficção. Parabéns!!!!!

    Te amo


    Ramon

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  2. Olá Eduardo xD
    Adorei seu texto bem escrito.
    Continue assim... me tornei um de seus leitores.
    Até mais.

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